quarta-feira, 13 de junho de 2007

AL BERTO, NOS 10 ANOS DA SUA MORTE

Alberto Raposo Pidwell Tavares
11 de janeiro 1948
13 de Junho 1997

«Tocar a luz, qualquer luz, não consegue ressuscitar nada. Sílaba a sílaba tudo continua imóvel. Mesmo quando as palavras se agitam e são voláteis, cortam a respiração – ou quando são vegetais e largam um fio de seiva quente na língua.
Porque é do silêncio poroso do anjo mudo, da fala incandescente do seu olhar que, de quando em quando, surge o poema.»
Al Berto, Incêndio



Vestígios

noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras

hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se

onde se pode - num vocabulário reduzido e
obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir

apesar de tudo
continuamos e repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial

Al-Berto
Horto de Incêndio

Imagem: La Luna de Joe Sorren

7 comentários:

avelaneiraflorida disse...

Lindissima escolha!!!!
Al berto é uma essência de vida!!!!
E a Imagem é deslumbrante!!!

"Brigados" por este post!
Um Bom dia!
Bjks

gasolina disse...

É bom saber que há gente atenta.
Mais uma vez, é bom passear no teu Bairro.
A irreverência da poesia.

Um abraço.

wind disse...

Bela homenagem e linda imagem:)
Beijs

JMD disse...

Associo-me à "homenagem".

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

***

e que linda imagem...*

3vairado disse...

Cru, doloroso e fulminante.
O uso banal das palavras deixou-as áridas e ocas.

Maresia e Luar disse...

Lindíssimo!
Pleno de sabedoria e de emoção.
Gostei imenso!