quarta-feira, 20 de junho de 2007

HÁ UMA HORA



«Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para, o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente gente! olhos, narinas, bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas,
varinas, caixeiros desempregados,
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos
mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico, em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua. (...)»

Mário Cesariny

7 comentários:

avelaneiraflorida disse...

Esta conjugação Cesariny /R. Leão é, de facto, uma pequena MARAVILHA!!!

Boa, papagueno!
Bjks

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

fantástico, claro!*

Moura ao Luar disse...

Um beijo para ti

Kalinka disse...

E, cá vou eu seguindo por terras belas, calmas e convidativas - Mourão e Borba.
Nesta viagem trago a Florbela comigo:
Árvores do Alentejo
Horas mortas... curvadas aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!
E quando, manhã alta, o sol postonte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
-Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
(Florbela Espanca)

Há sempre uma hora para tudo...
Beijitos.

Ludovicus Rex disse...

Há uma hora...
Belo post.

Um Abraço

Menina do Rio disse...

Isso é saudosismo?

beijos

Ema Pires disse...

Passava por aqui e como sempre, uma delícia.
Abraço