quinta-feira, 21 de junho de 2007

DE PROFUNDIS AMAMOS


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

Mário Cesariny
Pena Capital
Edição Assírio & Alvim
Imagem: Carla Salgueiro, Olhares

7 comentários:

Maria disse...

Gostei dos corsários de olhos de gato intransponíveis. Como não amar estas palavras? Lindo...

gasolina disse...

" O vinco das tuas calças está frio".
Só ele mesmo...
Sabe bem fechar o dia com palavras destas.

Um beijo, fica bem

Mário Margaride disse...

O inesquecível Mário Cerariny.

Belas palavras!

Grande abraço

avelaneiraflorida disse...

Chegar aqui, pela manhã, e ter ...Cesariny...é um PRIVILÈGIO!

"brigados", Papagueno!!!!
Bjks

Maresia e Luar disse...

Ler Cesariny é sempre um enorme gosto num blog que gosto cada vez mais de visitar!
Beijinhos!

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

"decorrerão muitos séculos antes de nós"

...

"nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso"


estas palavras sempre foram as minhas preferidas deste poema...*

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

ah, e a imagem é fabulosa...*