quarta-feira, 7 de novembro de 2007

POESIA E PINTURA

Não Basta Abrir a Janela

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O «homem» vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar,
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.

Alberto Caeiro

A Manhã Raia

A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma cousa abstracta, está, não é uma cousa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos manhã;
Por isso não há vantagem em pôr nomes errados às cousas,
Nem mesmo em lhe pôr nomes alguns.

Alberto Caeiro


Canção de primavera

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio


As Aldeias

Eu gosto das aldeias sossegadas,
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...

As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.

Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.

Gomes Leal



Semelhante à Imóvel

Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa

Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem

Semelhante ao disperso ao ínfimo chama-se agora aqui o sono da erva a ligeireza livre
a nuvem sobre a página.

António Ramos Rosa

Espera

Horas, horas sem fim,
graves, profundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um passáro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade


Pinturas de Alfred Sisley

9 comentários:

avelaneiraflorida disse...

SELECÇÂO LINDA E RECONFORTANTE!!!

APESAR DA TUA INQUIETAÇÃO...

"BRIGADOS" por estes momentos de beleza!!!!!

BJKS e um sorriso, está bem?

Maria Faia disse...

Que belo tempo aqui se passa...
Fernando Pessoa, Josá Régio, Eugénio de Andrade...
Seleccionaste os poemas com o coração e, quando assim é, a beleza espalha-se e a riqueza multiplica-se.

Obrigado Papagueno,

Um beijo Amigo,
Maria Faia

Menina do Rio disse...

"Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem".
O homem e suas idéias
O homem e seus ideiais
Passando sem ver...

Beijos

Kalinka disse...

OLÁ AMIGO
desta vez trago uma informação que poderá ser útil, quem sabe?

Para os Amigos bloguistas que me visitam, segue a informação adicional:
O Festival vai até ao dia 1º de Dezembro;o encerramento é neste dia, é representada a peça da casa: A Farsa de Mestre Pathelin - encenada por Manuel Ramos Costa, dirigida a um público adulto.
Quem viver no Norte do País e estiver interessado é só visitar o site:
www.contactovar.com

BEIJITOS.
Hoje tirei umas horitas para fazer uma visita, pois ando atrasadissima com as visitas aos blogues dos Amigos.

Bom fim de semana.

Kalinka disse...

Tive que voltar atrás e fazer um agradecimento a toda esta beleza de arte que nos ofereces:
LITERATURA, POESIA, PINTURA

António Ramos Rosa, Caeiro, Eugénio de Andrade, Gomes Leal, José Régio, Pintura, poesia que eu tanto adoro.

Muito obrigado.
Bom fim de semana.


MAR PORTUGUÊS

Gi disse...

Papagueno esmeraste-te

Todos, todos, bons. Começando pelo mestre Caeiro e acabando no me querido Eugénio Andrade. Adoro todos eles. Muito.

Um beijinho grande

Papoila disse...

Boa homenagem à poesia Portuguesa. Gosto acima de todas da Canção da Primavera de José Régio e da Espera de Eugénio de Andrade.

Beijinhos
BF

pinguim disse...

Só uma extrema sensibilidade nos poderia fazer compartilhar tanta beleza - escrita e visual.
Obrigado grande por essa partilha.
Abraço e bom fim de semana.

3vairado disse...

ver, não é como dar nome às coisas?
seremos capaz de ver sem um nome, uma forma simbólica?
Magnífico post (como tantos outros9
Obrigado papagueno