segunda-feira, 23 de junho de 2008

ACORDAR TARDE


tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto
Música: Jorge Palma, "Norte"(2004)
Imagem: Bruno Silva, Olhares

7 comentários:

pinguim disse...

Al Berto é a poesia no estado puro...

Arion disse...

Fala-me particularmente de perto, este poema. Abraço!

wind disse...

Muito forte este poema e Jorge Palma conseguiu, dar-lhe esse ar "pesado".
beijos

Um Certo Olhar disse...

Jorge Palma e Al Berto! Adorei, adorei,adorei.
Tens um espaço onde o amor é a essência.

Como no meu.

Um certo olhar

Bjos

Mandillo disse...

Excepcional!!!!
E a vida vem ter comigo,assim, por exemplo, abrindo este post!!!'???'
Tudo a ver com o " momento"!

Agradecida

Vieira Calado disse...

Conheci o Al Berto, pouco antes do seu falecimento, no lançamento dum livro seu, em Lisboa. Era um grande poeta.

Músico Guerreiro disse...

E um poema que me diz muito e que conheco ha uns quantos anos.
Conheci-o no fabuloso Horto de Incendio que comprei ainda vivia em Portugal.