quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A PÉROLA


«Kino, com o seu orgulho, a sua juventude e a sua força, conseguia permanecer debaixo de água durante mais de dois minutos, sem esforço, de modo que trabalhava deliberadamente, escolhendo as conchas maiores. Porque estavam a saer perturbadas, as ostras fechavam hermeticamente as suas conchas. Um pouco à sua direita erguia-se um aglomerado pedregoso, coberto de ostras demasiado pequenas para serem apanhadas. Kino aproximou-se desse aglomerado e, de repente, ao lado dele, por baixo de uma pequena saliência, viu uma ostra muito grande, isolada, sem irmãs agarradas a ela. A concha estava parcialmente aberta, porque a saliência protegia aquela ostra antiga, e, no manto semelhante a um lábio, Kino vislumbrou um brilho, antes que a concha se fechasse. O seu coração começou a bater com violência e a canção da pérola ambicionada soou, estridente aos seus ouvidos. Lentamente libertou a ostra e agarrou-a contra o peito. Soltou o pé da argola da pedra e o seu corpo elevou-se até à superficie e o seu cabelo negro brilhou à luz do sol. Agarrou-se ao rebordo da canoa e pousou a pérola no fundo.
(...)
Juana sentiu a excitação dele e fingiu afastar o olhar. Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso tacto com Deus ou com os deuses.
(...)
Kino introduziu hábilmente a faca entre as valvas da concha. sentia a resistência do manto contra a faca. Usou a lâmina como uma alavanca e o músculo cedeu e a concha abriu-se. A carne semelhante a um lábio contorceu-se e depois descaiu. Kino ergueu a carne e lá estava ela, a grande pérola, perfeita como a lua. Captou a luz, sublimou-a e reflectiu-a em incândescências prateadas. Era tão grande como um ovo de gaivota. Era a maior pérola do mundo»

"A Pérola", John Steinbeck, 1947


Quantas vezes os nossos mais belos sonhos não se transformam em pesadelos?

Quantas vezes os nossos maiores tesouros não se transformam em maldições?

Kino é um jovem pescador de pérolas que vive com a esposa, Juana e o seu filho bebé, Coyotito. Um dia Coyotito é picado por um escorpião. Kino corre até ao médico local que se recusa a tratar o bebé porque o pai é pobre e não pode pagar.
O jovem pescador não tem outra hipótese senão fazer-se ao mar para tentar encontrar uma pérola suficientemente grande para pagar os tratamentos da criança. Durante o mergulho a sorte parece sorrir a Kino que encontra uma pérola enorme, de um tamanho nunca visto até então. Só que o que parecia ser um grande tesouro, não tarda a revelar-se como uma terrível maldição...

16 comentários:

wind disse...

Muitas vezes, por isso às vezes mais vale nem sonhar:)
Beijos

Gi disse...

Este nunca li. Parece-me interessante. Com "pérolas" só mesmo os Comedores de Pérolas do João Aguiar um livro que recomendo.

Hoje ainda ri quando fui buscar uma coisa ao blogue antigo :) estava lá um comentário teu . Engenaste-te :) Andas mesmo a precisar de descanso homem :)

beijinhos

avelaneiraflorida disse...

Papagueno!!!!

Steinbeck...que bom!!!!Nos dias de hoje não tanto lido com merece!!!!
Para além da"Pérola"...o "meu" mais do que inesqucIvel " A UM DEUS DESCONHCIDO"!!!!!

Que boa evocação!!!!
" Brigados"!!!!
Bjks

CORCUNDA disse...

Li este livro em tempo de férias, emprestado por um amigo, devia ter para aí 15 anos. Nunca mais me esqueci da história. Foi daqueles livros que marcaram a minha adolescência e contribuiram para a formação da minha personalidade.
Mais tarde, uns bons anos mais tarde, viria a ler também o "A Leste do Paraíso".
Abraço do Corcunda.

papagueno disse...

Wind, apesar de tudo vale sempre a pena sonhar.

Gi tens muita razão, ando mesmo a precisar de descanso. Não conheço os "comedores de pérolas" mas esta bela história merece mesmo ser lida.

Corcunda e Avelaneira esses são dois dos grandes clássicos do grande escritor americano, se não me engano todos eles deram filmes, até "A Pérola" tem uma versão de um cineasta mexicano.
O meu primeiro contacto com o Steinbeck foi na adolescência. Tinha acabado de ver "As Vinhas da Ira" na tv, filme que me marcou muito e uns dias depois encontrei o livro em casa de um familiar e não descansei enquanto não o li.
Avelaneira, nem o Steinbeck, nem o nosso Aquilio são hoje tão lidos como mereceriam.
Um abraço a todos.

Maria del Sol disse...

É uma fábula muito pertinente, esta de Steinbeck, para reflectir sobre a imprevisibilidade da conjuntura que traça a sorte do ser humano, e a impotência do mesmo perante as suas mudanças. E só os grandes escritores conseguem transmitir mensagens complexas através de histórias simples, sem asfixiar o leitor ou cair na tentação dos estereótipos.

Optima sugestão, assim como a banda sonora dos Violent Femmes :)

RIC disse...

Na sequência do videoclipe anterior, convirá talvez dizer que a administração Bush «censurou» as comemorações de Steinbeck... E a besta máxima teve o descaramento de se «justificar» dizendo que hoje Steinbeck é um autor menor da literatura norte-americana...
Palavras para quê?
Já agora, acrescentaria outros dois títulos que muito aprecio: «A Um Deus Desconhecido» e, claro, «As Vinhas da Ira».
Um abraço! :-)

André Benjamim disse...

Esse é um dos livros que anda perdido na minha estante à espera de ser lido; depois de ler este post, acho que finalmente chegou a sua vez... até porque estive quase quinze minutos à procura dele (já começara a pensar que estava a confabular e que na realidade não o tinha)... coisas que acontecem a quem arruma os livros com uma ordem completamente desarrumada: ao acaso... abraço

Maria disse...

É um livro fantástico. Boa escolha, boa memória para uma manhã atribulada, boa sugestão para o serão que se deseja calmo. Saudades do Bairro do Amor, a minha cidade pequenina tem andado atribulada. Beijinho e um dia bom.

Kalinka disse...

Olá Amigo,

Óptimas sugestões de leitura. Obrigado pela partilha. Gostei.

Eu, tive uma recaída forte...
Amigo, dias 15, 16, 17 e 18 estive «fechada para balanço», é isso...estava «apagada» para o Mundo.
Depois comecei a regressar lentamente e, só ontem dia 19 é que vim ler os comentários e colocar outro post.

Dizer-te se estou melhor...é muito vago afirmar alguma coisa nesse sentido.
Estou VIVA e isso é que me interessa agora, acredita.

Agarro-me à Esperança e Fé em Deus, para poder continuar no Mundo dos vivos.

Beijos.

Joshua disse...

Ich bin ein Natürmensh. Sou verdadeiramente fanático por Die Zauberflöte.

E, claro, pela magnífica personagem Papageno e por tudo o que ela representa de absolutamente nosso.

Joshua disse...

No meu PALAVROSSAVRVS REX postei algumas vezes sobre essa Ópera.

pinguim disse...

Li muito Steinbeck, quando andava pelos meus 16/18 anos, mas nunca li "A pérola" curiosamente.
Foi dos grandes escritores americanos da primeira metade do século XX e até um pouco mais tarde.
Sem dúvida foram "A um Deus desconhecido", "As vinhas da ira" e o "Inverno do nosso descontentamento" os livros de que mais gostei.
Abraço.

Maria Faia disse...

Steinbeck...grande e marcante escritor. Na minha memória ficou, sobretudo, um grande romance seu, fundado em factos concretos e reais da história do povo americano, "As vinhas da Ira".
"A Pérola" nunca li mas, amigo Papagueno, aguçaste-me o apetite.
Na verdade, quantas e quantas vezes, os sonhos que sonhámos se transformam em grandes pesadelos...
Quantas. e quantas vezes sonhamos querendo ver o que não existe e, quando acordamos, sentimo-nos ludibriados, enganados, desenquadrados do mundo em que vivemos...
Mas, é como dizes. Mesmo assim, vale sempre a pena viver.

Excelente postagem a que partilhas connosco.
Um beijo amigo.

Maria Faia

By Alma Nova disse...

Adoro Steinbeck!
Quanto a este excerto, nem sei bem que te diga...é verdade que muitas vezes os nossos maiores sonhos se transformam em pesadelos sem que saibamos como nem porquê...mas será que por isso devemos deixar de sonhar e acreditar? Estou a meio caminho entre o descrédito e a esperança...neste momento não consigo ter uma opinião firme e serena. Jokitas.

lady.bug disse...

o teu blog é uma pérola
thanks

BB