domingo, 1 de novembro de 2009

O ADEUS A ANTÓNIO SÉRGIO

«Já não é o bichinho da rádio que morde, já sou eu que sou o bicho da rádio!»

Numa altura em que ainda não havia internet para "sacar" músicas ou "MySpace" para conhecer as bandas, era com os amigos, as cassetes emprestadas ou por alguma rádio que se podiam conhecer as tendências musicais mais alternativas.

Por essa altura era sempre um prazer ouvir programas como o Rock em Stock ou o Lança-Chamas, com a voz inconfundível de António Sérgio.


Nesses idos anos 80 a "Rádio Comercial" era a minha grande companhia, e sempre acompanhei o António Sérgio, lembro-me do "Som da Frente" e a Hora do Lobo por exemplo. Foi até a Rádio Comercial começar a fazer jus ao seu nome que deixei de a ouvir. Foi também por esse mesmo motivo que programas de autor, começaram a desaparecer da rádio, substituidos pelas horrendas "playlists" que passam horas sempre a passar as mesmas músicas. Foi essa mesma política que despediu um dos mais carismáticos locutores do meu tempo. Felizmente não lhe faltou emprego pois foi contratado pela "Radar" onde apresentava o programa Viriato 25 e fazia também "voz off" na SIC.
Assim perdemos um dos últimos grandes radialistas portugueses. Já sinto a falta daquela voz inconfundível.

sábado, 31 de outubro de 2009

MEMÓRIA AO ABANDONO


Finalmente, o escritor de canções lança um livro de poesia

«Não são canções, pelo menos as que pratico. Aqui, não há métrica mais ou menos regular (são diferentes implosões e diferentes explosões), não há rima (pode até havê-la, aqui e ali, mas apenas como um acaso que emergiu de um outro todo), e não há, com certeza, uma linha narrativa que se queira reconhecível – há aqui vários poemas que, a bem ver, não repousam em nenhum tema particular, antes cruzam referências e sobretudo memórias daquilo que foi crescendo, em cachos díspares, na minha árvore.»

Sérgio Godinho

Memória ao abandono

Memória ao abandono
a válvula do sono
aberta.
Desdobra panos
Hélice, ela
a grande borboleta
se é por pousar
já pousou -
despejando o vento
na abertura do vulcão
encarninhando a lava
no sentido giratório

Antes
tive medo de ter sono
agora
é planeta a planeta.

Sérgio Godinho
O Sangue por um Fio
Assíro & Alvim, 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PARABÉNS ASTÉRIX, E NÃO SÓ

Conhecida como a 9.ª Arte, a Banda Desenhada foi muitas vezes menosprezada em relação a outro tipo de literatura, pois estava conotada com o lazer e com a noção de que era leitura para crianças. No entanto aprendi muito com os meus livros de Banda Desenhada; do Tintim ao Corto Maltese, não só aprendi como também viajei em sonhos ao lado desses grandes aventureiros.

2009 é um ano que marca aniversários especiais para alguns dos heróis que fizeram parte das vidas de muitos de nós:


Começo pela Mafalda, a irreverente menina criada por Quino à 25 anos. Além de odiar sopa, continua sempre atenta ao que se vai passando no mundo. Este ano a data foi marcada com a inauguração de uma estátua da Mafaldinha em pleno centro de Buenos Aires.


Mais velhinhos são as personagens criados por Peyo, que eu tanto li na minha infância, embora hoje já não me cativem da mesma maneira. Fez esta semana 51 anos que os "Strumpfs", essas encantadoras criaturas azuis, surgiram nas páginas da Revista Spirou.


Em Julho deste ano foi a divertida, mas por vezes irascível (só quando o Cebolinha se porta mal) Mónica que chegou aos 50 anos. Deve ter feito uma plástica pois ainda tem ar de criança.

Finalmente um dos meus preferidos de sempre, Astérix que fez ontem 50 anos. Para comemorar o aniversário foi lançado um novo álbum, que não é própriamente uma aventura mas quase uma revisão dos 50 anos do herói. Também o "Google" se associou à data como um magnífico "logo":


Tenho todos os livros da colecção, já os li dezenas de vezes, cada uma com um novo olhar. Engraçado, que agora que estudo História, dou comigo a devorar os álbuns com sentido crítico, a reparar nos pormenores da arte e da arquitectura romana e a deliciar-me ainda mais com os anacronismos que tornam a série muito mais divertida.

Para quem sempre se habituou às velhas edições, principalmente da Mériberica, custa-me um bocado ler os nomes traduzidos, mas paciência, foi a opção da ASA. No entanto, para mim o Panoramix, será sempre o Panoramix, assim como Ordralfabetix e Assurancetourix.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

VOLVER A LOS 17

A notícia da morte da cantora Mercedes Sosa chegou sem grande surpresa face ao grave estado de saúde em que "la Negra" se encontrava.
A popular cantora foi, ao lado de Víctor Jara ou Violeta Parra, um dos maiores nomes da canção de protesto da América Latina. Entre os seus maiores sucessos estão exactamente duas versões de Violeta Parra; "Gracias a la Vida" e "Volver a los 17", esta última numa lindíssima versão em dueto com Milton Nascimento.



Volver a los 17

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

WAY OUT OF HERE



Enquanto não tenho na mão o novo "The Incident" aqui fica uma recordação do último álbum dos PT com este belíssimo "Way out of Here".

Out at the train tracks
I dream of escape
But a song comes onto my iPod
And I realize it's getting late

I can't take the staring
And the sympathy
And I don't like the questions:
"How do you feel? How's it going in school? Do you wanna talk about it..."

Way out, way out of here
Fade out, fade out, vanish

I'll try to forget you
And I know that I will
In a thousand years
Or maybe a week

I'll burn all your pictures
Cut out your face
And the shutters are down
And the curtains are closed
And I've covered my tracks
Disposed of the car

And I'll try to forget
Even your name
And the way that you look
When you're sleeping, and dreaming of this..

Way out, way out of here
Fade out, fade out, vanish

(Music: Barbieri/Edwin/Harrison/Wilson)
"Fear of a Blank Planet" (2007)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos.

Al Berto

domingo, 13 de setembro de 2009

ACROSS THE UNIVERSE



Por falar em Beatles, um belíssimo vídeo, com uma magnífica versão de Rufus Wainwright para "Across the Universe" dos "fab four". O vídeo é lindo e consegue, no meu entender, aliar a obra dos Beatles, à grande voz de Rufus e ao mundo surrealista de Magritte.

sábado, 12 de setembro de 2009

BEATLES REMASTERIZADOS


Esta é a notícia que qualquer bom melómano ansiava:
Os 13 álbums dos Beatles remasterizados: "Please Please Me"; "With the Beatles"; "A Hard Day's Night"; "Beatles for Sale; Help!; Rubber Soul; Revolver; Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band; Magical Mistery Tour; The Beatles ou White Album; Yellow Submarine; Abbey Road; Let it Be e ainda a colectânea Past Masters.

Pela primeira vez o som dos "fab four" surge em grande qualidade digital, da mesma maneira como se Lennon, McCartney, Harrison e Starr tivessem gravado os discos nos dias de hoje. Já podemos olhar para obras-primas como "Revolver", "Sgt. Pepper's" ou o "White Album" com outros ouvidos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

DAVID

David
Michelangelo Buonarroti (1475-1564)

Foi no dia 8 de Setembro de 1504 que uma das mais famosas obras de arte do mundo foi apresentada em Florença.
Miguel Angelo demorou cerca de 3 anos para concluír a seu David, que foi construído em mármore de Carrara medindo 5,17 m.

A obra tem fascinado o público ao longo destes 505 anos pelo seu fantástico realismo; desde o cabelo revolto ao pormenor de cada músculo ou das veias da mão, tudo é perfeito. A estátua fascina também pelo seu carácter inovador pois, pela primeira vez, o herói bíblico é representado imediatamente antes da batalha contra o gigante Golias, e não após como em obras anteriores de mestres como Donatello (1386-1466) ou Verrocchio (1435-1488). David parece concentrar-se para o combate contra o gigante que todos consideram impossível de bater.

A estátua permaneceu em frente ao Palácio Velho, na Praça da Senhoria até 1873, data em que foi transferida para a Galeria da Academia de belas Artes de Florença. No seu lugar original foi colocada uma cópia.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O TELESCÓPIO DE GALILEU

Galileu Galilei; Justus Sustermans (1636)

Foi há 400 anos que Galileu abriu uma janela para o Universo. No dia 25 de Agosto de 1609 Galileu Galilei apresentou ao Senado de Veneza a sua nova invenção, o telescópio. Agora o homem podia observar para além das estrelas. Obcecado pela perfeição, não tardou a aperfeiçoar as lentes, a 7 de janeiro de 1610 avistou pela primeira vez 4 das 16 luas de Júpiter: Calisto, Europa, Ganímedes e Io.
Heliocentrismo

Foi também graças ao telescópio que Galileu veio apoiar a teoria heliocêntrica, defendida quase um século antes por Nicolau Copérnico. Galileu, tal como o astrónomo e matemático polaco, acreditava que a Terra e os restantes planetas do sistema solar giravam em torno do Sol. Isto ia contra a doutrina geocêntrica de Aristóteles e Ptolomeu, que estabelecia a Terra como o centro do Universo, tendo o Sol e os restantes corpos celestes a girar à sua volta.

Galileu Enfrenta a Inquisição; Cristiano Banti (1857)


Estas ideias foram consideras heréticas, subversivas e perigosas, pois iam contra a doutrina estabelecida pela igreja. Perseguido pela inquisição, foi julgado pelo Santo Ofício e proíbido de divulgar as suas teorias. Obrigado a renegar aquilo em que acreditava, conseguiu evitar uma pena dura; Galileu viveu num sistema de prisão domiciliária até ao fim dos seus dias. À saída do julgamento terá proferido as palavras que ficaram para a história:

"Eppur si muove" - "No entanto ela move-se"

Da junção das palavras gregas "tele" (ver) e "scopio" (longe), o telescópio foi o objecto que permitiu ao homem mudar a maneira de ver o seu próprio mundo.

Por fim tenho que lembrar Rómulo de Carvalho; o homem de ciência encarnado em corpo de poeta:

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

António Gedeão
Excerto de "Poema para Galileu"

domingo, 23 de agosto de 2009

PHIL LYNOTT

He’s just a boy that his lost his way
He’s a rebel that has fallen down
He’s a fool been blown away
To you and me he’s a renegade

He’s a clown that we put down
He’s a man that doesn’t fit
He’s a king but not in this town
To you and me he’s a renegade

But he is a king when he’s on his own
He’s got a bike and that’s his throne
And when he rides he’s like the wind
To you and me he’s a renegade

He’s just a boy who has lost his sights
He’s a stranger, prowls the night
He’s a devil, that’s right
To you and me he’s a renegade

Check it out, check his face
Look at his eyes, they’re so sly
I wonder why he cries from the inside
I wonder why he’s a renegade

Oh please, I’m on my begged bended knees
Oh please, please heed my call
He’s just a boy that has lost his way
He’s just a boy, that’s all
Phill Lynott, Snowy White.

Se fosse vivo, Phill Lynott faria 60 anos no passado dia 20 de Agosto. Foi líder dos Thin Lizzy, uma das grandes bandas de rock dos anos 70 e 80. Além do fabuloso "Live and Dangerous" (1978), destaco na discografia dos Lizzy este "Renegade" de 1981.

Em 1979, Lynott foi fotografado em Lisboa por Ross Halfin; eis as imagens com um cheirinho a PREC:

"Phil Lynott was one of the coolest people you could ever meet"
Ross Halfin

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A MORTE DA VIRGEM

Michelangelo Merisi da Caravaggio
A Morte da Virgem (1606)

Ela é a virgem,
embora tenha conhecido muitos homens
e os seus filhos peregrinem pelo mundo
com lágrimas nos olhos
por não terem mãe.

Já cadáver, encontrei-a no Tibre,
e trouxe-a para aqui para a pintar,
sabendo que os frades não me irão
indultar a ousadia
– hão-de dizer que a tela é indecorosa
e que no meu trabalho nunca largo
o escândalo que me é próprio,
sempre tocado pela lascívia.

Na bacia de cobre está um preparado
com vinagre
para lavar o corpo da defunta,
sendo que aos pés da morta
é Maria Madalena que se vê,
com a cabeça caída
sobre o peito
por ser fundo o desgosto
de ver a amiga morta
– tinham chegado a Roma
há muito tempo
e conheciam-se
de pequenas aventuras nas tavernas,
sendo que às vezes partilhavam a cama
e os clientes,
ou, sendo caso disso, uma manta
no Inverno,
ou algum pão,
escasso,
o mais das vezes.

No centro da pintura estão três apóstolos.
A razão por que um deles está estupefacto
e ergue a mão direita
tem a ver, somente, com o drama
de a morte ser injusta,
usurpe alguém divino,
ou um miserável que não tenha
onde cair morto.

Mateus,
de todos os apóstolos o mais sábio,
porque estudou nos livros e na vida,
sabe que não há bálsamo eficaz
para quem parte,
por muito que tenha já sofrido;
por isso, o represento assim,
inconformado,
com uma mão aberta, e outra fechada:

a vida é tudo o que nos resta
estando vivos – o que vem a seguir
nunca se sabe que dimensões comporta,
mesmo que haja luz no outro lado
e a promessa de bondade seja cumprida.

Ao lado de Mateus, pintei Tiago,
que presume que a mulher não faleceu,
mas só se encontra adormecida
– se deu à luz, um dia,
e os seus filhos estão aí a comprová-lo,
ainda que dispersos pelo mundo,
é porque o transe da morte ultrapassou,
e dorme, apenas, para que conheça a eternidade
e influencie o céu
com a sua doçura perene de mulher.

O outro é Lucas,
que, a olhar em frente,
está a tentar compreender o que é um corpo,
essa engrenagem obscura,
que, sem álibis,
nos reflecte os métodos de Deus
– que dá, a cada um, um modo de sorrir e de chorar,
um modo de sofrer e de amar,
um modo de nascer e de morrer.

Atrás dos três apóstolos,
está disposto o mundo
– é gente que encontrei pelos mercados
e, em silêncio, dá testemunho
de que há na terra um tempo
em que se deve duvidar do que é certo,
sendo que certa há-de estar sempre a morte,
mas, também, o trabalho que aguarda
pelas nossas mãos,
na oficina,
nos campos
ou em casa.

Um é curtidor de peles,
outro negoceia cereais e vinhos,
outro faz cestos, e vende-os pelas praças,
outro é talhante,
um outro é ferrador e é barbeiro,
outro é astrónomo,
outro copista,
outro é soldado,
e outro pede esmola nas vielas,
a gritar a quem passa por piedade.

O mundo, pois.
Onde esteja a morte
é bom que um pintor figure o mundo,
para que no jogo de sombras fique incluso
esse jogo mais duro do confronto
com a realidade,
onde o próprio veludo tem cores cruas.

É isto que os frades me não perdoam
– o meu desassombramento perante o mundo,
a concisão patente no que faço,
chamando-lhe indecência
e insinuando que vesti de vermelho esta mulher
por gozo pessoal e por volúpia.

Não é verdade.
Antes de mais, porque a encontrei assim.
Depois, porque pensei que numa mulher não há pecado,
seja ela quem for e de onde venha.
Por último, porque tratando-se da virgem,
só mesmo o sangue a pode vestir,
o sangue espesso e forte,
de modo que quem olhar esta pintura
saiba o que vê, imediatamente:

uma mãe
que o sofrimento jamais abandonou,
em tudo o que viveu
– os perigos que há ao dar à luz,
a fuga para o Egipto,
a ameaça concreta no Sinédrio,
a árdua resistência necessária
para perscrutar em qualquer cruz
a iniquidade que o destino alcança.

Inchado,
maculado,
desfigurado
tem o seu rosto esta mulher morta,
adormecida.

E eu sou Caravaggio,
que luto, denodadamente, com a arte
para que a tragédia,
sagrada ou profana,
se represente igual à sua gravidade,
cantem, ou não, os anjos as hossanas,
goste-se, ou não se goste, do que faço.

A vida é turbulência
– e é assim que chega às minhas telas,

e é assim que o que pinto,
entre claros e escuros,
me proclama.

Amadeu Baptista
"Poemas de Caravaggio".

Originalmente encomendada para a Igreja de Santa Maria della Scala em Travestere; "A Morte da Virgem" acabaria por ser recusada quando se soube que o famoso pintor teria usado como modelo da mãe de Cristo uma prostituta morta encontrada a flutuar no Rio Tibre.

sábado, 15 de agosto de 2009

WOODSTOCK, 40 ANOS


Woodstock 40 anos, ao som de Canned Heat

Há 40 anos ainda havia quem acreditasse que era possível mudar o mundo. Hoje é essa geração que está no poder...

Woodstock foi há 40 anos. Nos muitos festivais que há hoje seria possível repetir este espírito de música amor e liberdade? Seria possível ir ao Sudoeste e ver jovens a dançar nus ao som da sua banda favorita?

Jimi Hendrix, simplesmente fabuloso.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

sábado, 8 de agosto de 2009

domingo, 5 de julho de 2009

FÁBULA


Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo misterioso e distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.

Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem fremente e quase hirto, ao mesmo tempo, à força de concentrar todo o ímpeto nas nádegas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas ardentes e sombrias da rapariga. Parecia um cavalo ofegante – os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim, a paz desceu ao mundo.

Maria olhava o carpinteiro com uns olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, havia neles sombra e solidão. Eram uns olhos nocturnos, negros como poços fundos, que afirmavam a morte.

Sem uma palavra, o homem ergueu-se e começou a mijar. A rapariga levantou-se a seguir e, de costas, parecia limpar as pernas. Eu escondi-me melhor atrás dos amieiros, não vi mais nada. Senti os passos de ambos afastarem-se, cada um para seu lado, com o coração pequeno, apertado. De um salto, atirei-me à cama que os seus corpos haviam feito na areia, respirando avidamente, como se o ar pudesse trazer-me mais do que o cheiro morno e acidulado da urina, e deixei de perceber os passos já distanciados, o estalar dos ramos secos aqui e ali, para só ouvir o silêncio.

Era um silêncio no areal, nas árvores, nas nuvens. Um silêncio na tarde, na rua, nas casas. Um silêncio no pão, na água. Um silêncio que se tornava dia a dia mais pesado mais devorador.
Um silêncio feito dos seios de Maria, dos flancos suados do carpinteiro, que me despertava a carne durante a noite, me fechava os olhos pela madrugada, me dava vontade de fugir durante o dia.

Eugénio de Andrade.
Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
Selecção, prefácio e notas de Natália Correia.
3.ª Edição (2005), Antígona
Imagem:
Daphnis and Chloe (1890)
Ilustração de Raphaël Collin

quinta-feira, 2 de julho de 2009

BRINCANDO COM A ARTE



Obras retratadas:
O Cristo Morto (140-1490); Andrea Mantegna
S. Sebastião (1480); Andrea mantegna
A Morte de Marat (1793); Jacques-Louis David

quarta-feira, 1 de julho de 2009

ESTADOS DE ALMA

Sappho (1877)
Charles Menguin


Não sei o que fazer: o meu coração está
dividido.

*

A Lua e as Pléiades estão deitadas, o tempo
passa e estou sozinha no meu leito, no
meio da noite.

*

As crianças trazem bonitos presentes e
ouve-se tocar melodiosa lira.

*

Mas a velhice já enrugou toda a minha
pele, os meus cabelos negros tornaram-se
brancos, os joelhos já não me aguentam, e
eu que parecia uma corça.

*

Que posso fazer? É inevitável: a aurora de
braços rosados leva-nos para a cova. Mas eu
ainda amo a volúpia e o amor tem para mim
o brilho e a beleza do sol.

*

Eu estremeço e a velhice já cobre a minha
pele.
o amor evade-se na perseguição dos jovens.

Agarra na tua lira e canta-nos, Afrodite,
com os seios cobertos de violetas.

Safo, "O desejo"
Trad. Serafim Ferreira
Editorial Teorema, 2003

terça-feira, 30 de junho de 2009

A ARTE DE PINA BAUSCH



Imagens: Muller Café e Iphigenie auf Tauris

sábado, 27 de junho de 2009

UM FIM DE TARDE PERFEITO


Rita Redshoes junto aos Armazéns do Chiado.