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domingo, 25 de abril de 2010

Maré Alta

A memória do Sr. Silva é curta, porém a hipocrisia é enorme. Como pode ter a lata de recordar o nome de Salgueiro Maia, quando o tratou tão mal em vida? Será que vamos ter que aturar este dinossauro por mais quatro anos?

O que interessa é não perder a esperança pois um dia a Liberdade ainda vai passar por aqui:


sábado, 31 de outubro de 2009

MEMÓRIA AO ABANDONO


Finalmente, o escritor de canções lança um livro de poesia

«Não são canções, pelo menos as que pratico. Aqui, não há métrica mais ou menos regular (são diferentes implosões e diferentes explosões), não há rima (pode até havê-la, aqui e ali, mas apenas como um acaso que emergiu de um outro todo), e não há, com certeza, uma linha narrativa que se queira reconhecível – há aqui vários poemas que, a bem ver, não repousam em nenhum tema particular, antes cruzam referências e sobretudo memórias daquilo que foi crescendo, em cachos díspares, na minha árvore.»

Sérgio Godinho

Memória ao abandono

Memória ao abandono
a válvula do sono
aberta.
Desdobra panos
Hélice, ela
a grande borboleta
se é por pousar
já pousou -
despejando o vento
na abertura do vulcão
encarninhando a lava
no sentido giratório

Antes
tive medo de ter sono
agora
é planeta a planeta.

Sérgio Godinho
O Sangue por um Fio
Assíro & Alvim, 2009

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

HOJE APETECE-ME DANÇAR...



«Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só»


terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

AS HORAS EXTRAORDINÁRIAS


Foi a saudade do teu braço
e o olhar que já da luz me dói
trabalhei sem dar p´lo cansaço
horas extraordinárias, foi
um dia que passou num furacão
um furacão que se amainou, só
quando, aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

E assim que volto ao meu lugar
reencontro com dor e com prazer
o coração que fiz falar
à máquina de escrever, a ver
ela a dar corda à máquina de amar
e um coração a se amainar, só
quando aparte o amor
eu me vi só
atirando amoeda ao ar
diz-me que cara ou coroa
eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem
em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

Sérgio Godinho
Imagem: Salvador Dali

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

PARABÉNS SÉRGIO

Sérgio Godinho (Porto, 31 Agosto de 1945)

Mudemos de Assunto

Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
Sérgio Godinho
"Campolide", 1979

terça-feira, 24 de julho de 2007

A BALADA DA RITA


Disseram-me um dia, Rita (põe-te em guarda)
aviso-te, a vida é dura (põe-te em guarda)
cerra os dois punhos e andou (põe-te em guarda)
e eu disse adeus à desdita
e lancei mãos à aventura
e ainda aqui está quem falou

Galguei caminhos-de-ferro (põe-te em guarda)
palmilhei ruas à fome (põe-te em guarda)
dormi em bancos à chuva (põe-te em guarda)
e a solidão, não erro
se ao chamá-la, o seu nome
me vai que nem uma luva

Andei com homens de faca (põe-te em guarda)
vivi com homens safados (põe-te em guarda)
morei com homens de briga (põe-te em guarda)
uns acabaram de maca
e outros ainda mais deitados
o coveiro que o diga

O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada

E um dia de tanto andar (põe-te em guarda)
eu vi-me exausta e exangue (põe-te em guarda)
entre um berço e um caixão (põe-te em guarda)
mas quem tratou de me amar
soube estancar o meu sangue
e soube erguer-me do chão

Veio a fama e veio a glória (põe-te em guarda)
passearam-me de ombro em ombro (põe-te em guarda)
encheram-me de flores o quarto (põe-te em guarda)
mas é sempre a mesma história
depois do primeiro assombro
logo o corpo fica farto

O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada

Sérgio Godinho
"Pano-Cru", 1978
Uma das minhas favoritas do Sérgio, é cantada por Lia Gama no filme "Kilas o Mau da Fita" com o saudoso Mário Viegas.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

terça-feira, 8 de maio de 2007

O CHARLATÃO




Numa ruela de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis de ouro a um tostão
enriquece o charlatão

No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f´rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra



Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas

P´rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca de alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Letra: Sérgio Godinho
Música: José Mário Branco

quinta-feira, 15 de março de 2007

A NOITE PASSADA



Esta música passou várias vezes pelo antigo Bairro do Amor e não podia faltar neste. Será que uma música ou um poema podem ser belos demais? Esta para mim é a mais linda canção de amor da música portuguesa.

A NOITE PASSADA

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sérgio Godinho
Pré-Histórias 1972

quinta-feira, 8 de março de 2007

O PRIMEIRO DIA



A principio simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
est-se bem no silncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos memria uma frase batida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
d-se a volta ao medo e d-se a volta ao mundo
diz-se do passado que est moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos memria uma frase batida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida

E ento que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se algum nos diz bom proveito
e vem-nos memria uma frase batida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vem cansaos e o corpo frequeja
molha-se para dentro e j pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos memria uma frase batida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem at dum copo vazio
e vem-nos memria uma frase batida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra mar cheia vir da mar vaza
nasce um novo dia e no brao outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos memria uma frase batida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida
hoje o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho