
domingo, 6 de julho de 2008
UM BLOG CHEIO DE ATITUDE

CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes
Sophia de Mello Breyner Andresen
sábado, 5 de julho de 2008
LISBOA

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;
daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;
daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;
daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus.
Alexandre O'Neill
Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
Sophia de Mello Breyner Andresen

Primeira canção em Lisboa
Em Lisboa é que nascem as gaivotas.
Que pena, meu amor, o mar não ser
um copo de água pura. De água para
a sede que em Lisboa eu vi nascer.
Em Lisboa. Capital do vento sul.
Coração do meu povo. A doer tanto
que a dor se tornou cor. E é azul
como a ganga dos homens do meu canto.
Em Lisboa a gente morre sem idade.
Devagar. Como se faz uma canção.
E há um pássaro que voa. É a saudade.
E uma janela aberta. O coração.
Joaquim Pessoa

Adeus, Lisboa
Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.
Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.
A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
livagens de diamantes,
Numa hipnose coletiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?

Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.
A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!
António Gedeão
quinta-feira, 3 de julho de 2008
CASAMENTO

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! - uma vez.
E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.
Natália Correia
Este poema foi escrito em 1982 e foi dedicado ao deputado João Morgado do CDS que num debate sobre a lei do aborto deixara escapar esta pérola:
"O acto sexual só é justificável tendo por objectivo a procriação."
Hoje, a Natália, infelizmente, já cá não está. Portanto vou dedicar este poema a todos aqueles que acham que o casamento é só para procriar.
POETA CHIADO

CASAMENTO DE BEATRIZ VARELA COM CORIGO
Noivo - Sim.
Padrinho -…Está bem:
iguais estais nas vontades.
Dai cá as mãos, e dizei assim:
- Digo eu, Beatriz Varela,
que por meu marido e amigo
recebo a vós, João Corigo.
Tomai agora a mão dela,
e dizei, como eu disser:
- Digo eu, Lourenço Corigo,
que com vontade singela
recebo a vós, Beatriz Varela,
por mulher.
Comadre - Que fazeis? Deitai-lhe o trigo.
Quis Deus que fosseis casados.
Para que são mais trapaças?
Alçai as mãos, dai-lhe graças.
Filhos, sejais bem logrados!
Ela moça, e ele moço,
bem se foram ajuntar.
Por vós se pode cantar:
Deitem o noivo ao poço,
se com a noiva não brincar.
António Ribeiro (O Chiado)
«Auto das Regateiras», excerto
In: «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (dos Cancioneiros Medievais à Actualidade)», Selecção, prefácio e notas de NATÁLIA CORREIA
Todos os lisboetas já passaram pela sua estátua, mas será que alguém parou para se perguntar quem ele era?
António Ribeiro, conhecido por "O Chiado" ou "O Poeta Chiado" (Évora, 1520 (?) - Lisboa, 1591)
Foi um poeta jocoso e sátiro do século XVI, contemporâneo de Luís Vaz de Camões. Era conhecido como Chiado (o poeta) por ter morado muitos anos no Chiado, em Lisboa, na rua assim chamada já naquele século, que no século XIX mudaria para Rua Almeida Garrett, nome que conserva até hoje.
Fonte: Wikipedia
quarta-feira, 2 de julho de 2008
FRANCESCO E PAOLA
Francesca da Rimini and Paolo Malatesta (1819)
Jean Auguste Ingres(1780-1867)
E ela a mim: «Nenhuma maior dor
do que a de recordar tempo feliz
já na miséria; e o sabe o teu doutor.
Mas tu, se em conhecer qual a raiz
primeira deste amor, pões tal afeito,
di-lo-ei como quem chora em quanto diz.
Um dia a ler com ele me deleito,
de Lançarote, o amor como o prendeu:
Éramos sós e nada a nós suspeito.
Várias vezes o olhar nos suspendeu
essa leitura e deu pálido aviso;
mas foi um ponto só que nos venceu.
Quando lemos do desejado riso
a ser beijado por tão grande amante,
e este, que de mim seja indiviso,
a boca me beijou todo anelante.
Galeoto foi o livro e quem o disse:
nesse dia não lemos adiante.»
Como um espírito isto referisse,
chorava o outro, e em mim tal pena vi
que foi qual se a morrer eu me sentisse;
e como um corpo morto assim caí.
Dante
"A Divina Comédia", tradução de Vasco Graça Moura, Círculo de Leitores)
Gianciotto discovers Paolo and Francesca (1814)
Jean Auguste Ingres (1780-1867)
Este excerto do poema de Dante refere-se ao amor trágico entre Francesca da Polenta e Paolo Malatesta.
Francesca(1255—1285), era filha de Guido da Polenta(?-1297), senhor de Rimini. Durante muitos anos a família Polenta andou em guerra contra o poderoso Verruchio de Malatesta(1212–1312). A paz foi firmada com um acordo de casamento entre Francesca e o filho mais velho de Malatesta, Giovanni, também conhecido por Gianciotto(?-1304).
Consta que Giovanni, além de feio e disforme, era também cocho. Havia então o receio que a família Polenta recusasse o casamento mal visse a cara do noivo. Foi então enviado Paolo de Malatesta, irmão mais novo de Giovanni, para tratar dos assuntos do casamento. Pensando que o seu noivo seria Paolo, a jovem acedeu em casar. Quando deu pelo erro já era tarde, estava casada e apaixonada pelo cunhado.
Um dia, estando a jovem Francesca lendo um livro sobre os amores proíbidos entre Lancelot, Cavaleiro da Távola Redonda e Guinevere, esposa do Rei Artur, entrou Paolo que lhe interrompeu a leitura com um apaixonado beijo.
Nesse momento são surpreendidos por Giovanni que, louco de ciúmes, mata os dois.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
QUANDO UMA ROSA MORRE

Quando uma rosa morre
Outra cresce em seu lugar
Para onde o rio corre
Não é sempre o mesmo mar
Quando uma rosa morre
Outra lua se anuncia
Não é sempre a mesma luz
Nem o mesmo fim do dia
O sentido é um desvio
A verdade um acidente
Não é sempre o mesmo rio
Não é sempre a dor que sente
(para sempre só o acaso
De te encontrar sempre em mim)
Rádio Macau
"Oito" (2008)
domingo, 29 de junho de 2008
PREGUIÇA

Ontem à noite houve festa e arraial até às tantas. Hoje estou em modo de preguiça.
Hino à Preguiça
Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, conchegado leito
Vem dirigir meus passos.
Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d'água, que jorra
Do próximo rochedo.
Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.
Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: -- são as horas,
Que aos poucos lá se vão. --
Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,
Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.
Para dormir à sesta às garras fujo
Do improbo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.
Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.
O que tens de comum com a soberba?...
E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?
Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranqüila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?
Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.
Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.
Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
De mórbida indolência!...
Es discreta e calada como a noute;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.
Quando apareces, coroada a fronte
De roxas dormideiras,
Longe espancas cuidados importunos,
E agitações fragueiras;
Emudece do ríspido trabalho
A atroadora lida;
Repousa o corpo, o espírito se acalma,
E corre em paz a vida.
Até dos claustros pelas celas reinas
Em ar de santidade,
E no gordo toutiço te entronizas
De rechonchudo abade.
Quem, senão tu, os sonhos alimenta
Da cândida donzela,
Quando sozinha vago amor delira
Cismando na janela?...
Não é também, ao descair da tarde,
Que o vate nos teus braços
Deixa à vontade a fantasia ardente
Vagar pelos espaços?...
Maldigam-te outros; eu, na minha lira
Mil hinos cantarei
Em honra tua, e ao pé de teus altares
Sempre cochilarei.
Nasceste outrora em plaga americana
À luz de ardente sesta,
Junto de um manso arroio, que corria
À sombra da floresta.
Gentil cabocla de fagueiro rosto,
De índole indolente,
Sem dor te concebeu entre as delícias
De um sonho inconsciente.
E nessa hora as auras nem buliam
Nas ramas do arvoredo,
E o rio a deslizar de vagaroso
Quase que estava quedo.
Calou-se o sabiá, deixando em meio
O canto harmonioso,
E para o ninho junto da consorte
Voou silencioso.
A águia, que, adejando sobre as nuvens,
Dos ares é princesa,
Sentiu frouxas as asas, e do bico
Deixou cair a presa.
De murmurar, manando entre pedrinhas
A fonte se esqueceu,
E nos imóveis cálices das flores
A brisa adormeceu.
Por todo o mundo o manto do repouso
Então se desdobrou,
E até dizem, que o sol naquele dia
Seu giro retardou.
E eu também já vou sentindo agora
A mágica influência
De teu condão; os membros se entorpecem
Em branda sonolência.
Tudo a dormir convida; a mente e o corpo
Nesta hora tão serena
Lânguidos vergam; dos inertes dedos
Sinto cair-me a pena.
Mas ai!... dos braços teus hoje me arranca
Fatal necessidade!...
Preguiça, é tempo de dizer-te adeus,
Ó céus!... com que saudade!
Bernardo Guimarães
poeta brasileiro (1825-1884)
sábado, 28 de junho de 2008
NOITE DE S. PEDRO
S. Pedro (1618)
Peter Paul Rubens (1577-1640)
Segundo a Bíblia, seu nome original não era Pedro, mas Simão. Nos livros dos Atos dos Apóstolos e na Segunda Epístola de Pedro, aparece ainda uma variante do seu nome original, Simeão. Cristo mudou seu nome para כיפא, Kepha, que em aramaico significa "pedra", "rocha", nome este que foi traduzido para o grego como Πέτρος, Petros, através da palavra πέτρα, petra, que também significa "pedra" ou "rocha", e posteriormente passou para o latim como Petrus, também através da palavra petra, de mesmo significado.
Pedro é considerado o "príncipe dos apóstolos" e o fundador, junto com São Paulo, da Igreja de Roma (a Santa Sé), sendo-lhe reconhecido ainda o título de primeiro Papa (um tanto anacronicamente, posto que tal designação só começaria a ser usada cerca de dois séculos mais tarde – Pedro foi o primeiro Bispo de Roma); essa circunstância é importante, pois daí se tira a primazia do Papa sobre toda a Igreja.
As Lágrimas de S. Pedro (1600)
El Greco (1541-1614)
sexta-feira, 27 de junho de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
RIOS

Rios há que em vez de correrem para a foz, correm
para a nascente. Sentindo-se acossados, dissimulam-se
sob a mais densa folhagem.
Quem alguma vez neles se banhou, ficou deveras impres-
sionado com a volúpia das suas águas e os pequenos
redemoinhos.
Temos que os proteger dos outros rios mais poderosos
e arrogantes. Sob pena de um dia morrermos afogados
nas nossas próprias águas.

O GUARDA RIOS
É Tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós
Textos de Jorge Sousa Braga
In "O Poeta Nu" (1999)
Imagens dos dois rios correm dentro de mim: O Douro e o Tejo.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
MARAVILHAS DA FLORESTA TROPICAL

Borboleta Morpho Azul
Dois ternurentos macacos capuchinhosJá há muito que não trazia aqui os meus bichinhos.
Imagens: National Geographic
THE GHOST OF TOM JOAD
The ghost of Tom Joad
Men walkin' 'long the railroad tracks
Goin' someplace there's no goin' back
Highway patrol choppers comin' up over the ridge
Hot soup on a campfire under the bridge
Shelter line stretchin' round the corner
Welcome to the new world order
Families sleepin' in their cars in the southwest
No home no job no peace no rest
The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
Searchin' for the ghost of Tom Joad
He pulls prayer book out of his sleeping bag
Preacher lights up a butt and takes a drag
Waitin' for when the last shall be first and the first shall be last
In a cardboard box 'neath the underpass
Got a one-way ticket to the promised land
You got a hole in your belly and gun in your hand
Sleeping on a pillow of solid rock
Bathin' in the city aqueduct
The highway is alive tonight
But where it's headed everybody knows
I'm sittin' down here in the campfire light
Waitin' on the ghost of Tom Joad
Now Tom said "Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there
Wherever there's somebody fightin' for a place to stand
Or decent job or a helpin' hand
Wherever somebody's strugglin' to be free
Look in their eyes Mom you'll see me."
The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' downhere in the campfire light
With the Ghost of Tom Joad.
Bruce Springsteen
"The Ghost of Tom Joad" (1995)
terça-feira, 24 de junho de 2008
VIVA A NOITE DE S. JOÃO!

Alguém faz ouvir a viola:
-É ela que vai cantar!
São João lavou a cara
Na fonte de manhã cedo:
-Podes vir dançar comigo
Que eu não sou de meter medo.
No céu cor de vidro fosco
Aparecem as estrelas,
Trémulas, frias, distantes,
Como lascas pequeninas
De piquenos diamantes.
Ganha força o movimento!
E tudo baila!: - o harmónio,
Risos, guitarra, cantigas,
- Labaredas de paixão,
Despeito, nervos, ciúme,
- Coisas que os olhos não dizem
E as palavras não traduzem
Nem chegam a insunuar...
Toda a paisagem tem alma
E o ar parece vibrar!
António Botto
Aguarela Sombria (excerto)
"Canções e Outros Poemas"
Edição, cronologia e introdução de Eduardo Pitta.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
ACORDAR TARDE

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
Al Berto
Música: Jorge Palma, "Norte"(2004)
Imagem: Bruno Silva, Olhares
domingo, 22 de junho de 2008
BLACK AND GOLD
«'Cause if you're not really here
then the stars don't even matter
now i'm filled to the top with fear
but it's all just a bunch of matter
'cause if you're not really here
then i don't want to be either
i wanna be next to you
black and gold
black and gold
black and gold»
Sam Sparro
sábado, 21 de junho de 2008
O MEU PÉ DE LARANJA LIMA

"— Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que não tem nem um espinho.
Ele tem tanta personalidade que a gente de longe já sabe que é Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, não queria outra coisa.
— Mas eu queria um pé de árvore grandão.
— Pense bem, Zezé. Ele é novinho ainda. Vai ficar um baita pé de laranja. Assim ele vai crescer junto com você. Vocês dois vão se entender como se fossem dois irmãos.
Você viu o galho? É verdade que o único que tem, mas parece até um cavalinho feito pra você montar.
Estava me sentindo o maior desgraçado da vida. (...)... Sempre eu tinha que ser o último.
Quando crescesse iam ver só. Ia comprar uma selva amazónica e todas as árvores que tocavam no céu, seriam minhas.(...)
Emburrei. Sentei no chão e encostei a minha zanga no pé de Laranja Lima. Glória se afastou sorrindo.
— Essa zanga não dura, Zezé. Você vai acabar descobrindo que eu tinha razão.
Cavouquei o chão com um pauzinho e começava a parar de fungar. Uma voz falou vindo de não sei onde, perto do meu coração.
— Eu acho que sua irmã tem toda a razão.
— Sempre todo mundo tem toda a razão. Eu é que não tenho nunca.
— Não é verdade. Se você me olhasse bem, você acabava descobrindo.
Eu levantei assustado e olhei a arvorezinha. Era estranho porque sempre eu conversava com tudo, mas pensava que era o meu passarinho de dentro que se encarregava de arranjar fala.
— Mas você fala mesmo?
— Não está me ouvindo?
E deu uma risada baixinha. Quase saí aos berros pelo quintal. Mas a curiosidade me prendia ali.
— Por onde você fala?
— Árvore fala por todo canto. Pelas folhas, pelos galhos, pelas raízes. Quer ver? Encoste seu ouvido aqui no meu tronco que você escuta meu coração bater. Fiquei meio indeciso, mas vendo o seu tamanho, perdi o medo. Encostei o ouvido e uma coisa longe fazia tique... tique...
— Viu?
— Me diga uma coisa. Todo mundo sabe que você fala?
— Não. Só você.
— Verdade?
— Posso jurar. Uma fada me disse que quando um menininho igualzinho a você ficasse meu amigo, que eu ia falar e ser muito feliz.
— E você vai esperar?
— O quê?
— Até eu me mudar. Vai demorar mais de uma semana. Será que você não vai se esquecer de falar nesse tempo?
— Nunca mais. Isto é, para você só. Você quer ver como eu sou macio?
— Como é que...
— Monte no meu galho. Obedeci.
— Agora, dê um balancinho e feche os olhos.
Fiz o que mandou.
— Que tal? Você alguma vez na vida teve cavalinho melhor?
— Nunca. É uma delícia. Até vou dar o meu cavalinho Raio de Luar para meu irmão menor. Você vai gostar muito dele, sabe?
Desci adorando o meu pé de Laranja Lima.
— Olhe, eu vou fazer uma coisa. Sempre quando puder, antes de mudar, eu venho dar uma palavrinha com você... Agora preciso ir, já estão de saída lá na frente.
— Mas, amigo não se despede assim.
— Psiu! Lá vem ela.
Glória chegou mesmo na hora em que eu o abraçava.
— Adeus, amigo. Você é a coisa mais linda do mundo!
— Não falei a você?
— Falou, sim Agora se vocês me dessem a mangueira e o pé de tamarindo em troca da minha árvore, eu não queria.
Ela passou a mão nos meus cabelos, ternamente.
— Cabecinha, cabecinha!...
Saímos de mãos dadas.
— Godóia, você não acha que sua mangueira é meio burrona?
— Ainda não deu para saber, mas parece um pouco.
— E o pé de tamarindo de Totoca?
— É meio sem jeitão, por quê?
— Não sei se posso contar."
José Mauro de Vasconcelos . "O Meu Pé de Laranja Lima"
Devia ter 10 ou 11 anos, não me lembro da cara nem do nome da professora, mas recordo-me que uma vez por semana havia sempre uma aula dedicada á leitura. Foi ai que conheci a história do Zezé, do Portuga e do pé de laranja lima.
Nunca deixamos de ser crianças e a história continua hoje a ter tanto encanto como dantes.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
O TRATADO
Mesmo que este tratado fosse muito bom, não se pode aprovar uma Europa sem ouvir os europeus. O povo irlandês foi o único chamado a pronunciar-se e disse NÃO!Como seria nos outros países se houvesse referendo? Vai mal a democracia quando os políticos têm medo de ouvir o povo.

Eu sei que a guerra contra este tratado está perdida logo à partida, ainda assim ergo bem alto a minha Guiness para um brinde ao povo irlandês.
Cartoons descaradamente roubados ao Guardião e Zé Povinho.
I'M A CUCKOO

Clamator jacobinus, cuco-jacobino
I'd rather be in Tokyo
I'd rather listen to Thin Lizzy-oh
And watch the Sunday gang in Harajuku
There's something wrong with me, I'm a cuckoo
Belle & Sebastian
quinta-feira, 19 de junho de 2008
PAPOILAS


Seus olhos
Como duas flores
Ópio do meu desejo
Papagueno
A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa,
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;
Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!
No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!
Ama-me doida, estonteadoramente,
Ó meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Álvaro de Campos
excerto de "Opiário"

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.
Álvaro de Campos
Álvaro de Campos
excerto de "Opiário"


A papoila, ou papoula, é uma flor da família das Papaveraceae, abundante no Hemisfério Norte, cultivada para ornamento, ópio ou comida.
Com relação a sua reprodução, o ovário da papoila localiza-se acima do receptáculo inserindo-se os estames e pétalas abaixo dele.
Fonte: Wikipedia

A papoila, é para mim, uma das flores mais bonitas que existem. Felizmente a poucos metros da minha casa há um jardim onde me posso deliciar com estas pequenas maravilhas coloridas.
terça-feira, 17 de junho de 2008
GOSTO DO CÉU

Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba
E que agora e antes d'isso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e tem um fim,
E que antes e depois d'isso não havia tempo.
Porque há-se ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubéssemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é um quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas
Alberto Caeiro
[Poema inédito, sem data, transcrito por Jerónimo Pizarro]
Contido na edição de 13 de Junho de 2008 do Jornal Público, por ocasião dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
MARAVILHAS BARROCAS
O Martírio de S. SebastiãoOlhos negros, que da alma sois senhores
Duvido com razão desse atributo,
Que é muito, que quem mata, traga o luto,
E é muito ver na noite resplendores:
Se de negros, meus olhos, tendes cores,
Como as almas vos dão hoje tributo.
Quem viu que os negros com rigor astuto
Os brancos prenda com grilhões traidores.
Mas ah, que foi discreta providência
O fazê-lo da cor da minha sorte,
Por não sentir rigor tão desabrido.
Para que veja assim toda a prudência
Que foi prodígio grande, e pasmo forte,
Em duas noites ver o Sol partido.
Francisco de Vasconcelos (1655-1723)
A incredibilidade de S. Tomé(1601-1602)
O Triunfo de Baco, Los Borrachos 1629
Diego Velasquez (1599 - 1660)
S. Sebastião assistido por Irene(1628)
Jusepe de Ribera(1591-1652)
O Rapto de Europa(1628-1629)Peter Paul Rubens(1577-1640)
Serei eu alguma hora tão ditoso,
Que os cabelos, que amor laços fazia,
Por prémio de o esperar, veja algum dia
Soltos ao brando vento buliçoso?
Verei os olhos, donde o sol formoso
As portas da manhã mais cedo abria,
Mas, em chegando a vê-los, se partia
ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?
Verei a limpa testa, a quem a Aurora
Graça sempre pediu? E os brancos dentes,
Por quem trocara as pérolas que chora?
Mas que espero de ver dias contentes,
Se para se pagar de gosto uma hora,
Não bastam mil idades diferentes?
D. Francisco Manuel de Melo(1608-1666)
Jovem mendigo(1650)Bartolomé Murillo(1618-1682)
Fuga para o Egipto(1609)
Adam Elsheimer(1578-1610)
Venus Assistida Pelas Suas Ninfas e Cupidos(1633)
Francesco Albani(1578-1660)
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...
Tão tirana e desigual
Sustenta sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...
Se algumas tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhe queiras, coração,
E, senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...
São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas as mulheres!
Francisco Rodrigues Lobo (1579-1621)
domingo, 15 de junho de 2008
sábado, 14 de junho de 2008
GAIVOTA

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
Alexandre O'Neill




